A cena eletrônica vive um paradoxo cada vez mais evidente: nunca se falou tanto em imagem
@djrafaelrosa
A cena eletrônica vive um paradoxo cada vez mais evidente: nunca se falou tanto em imagem e tão pouco em entrega artística. Para o DJ e produtor Rafael Rosa @djrafaelrosa essa distorção afeta diretamente o reconhecimento de quem construiu carreira com consistência, especialmente dentro do tribal house.
“Hoje, infelizmente, o talento não conta tanto quanto deveria”, afirma. Segundo ele, o espaço que antes era ocupado por produtores experientes tem sido rapidamente tomado por influencers, atores, ex-BBBs e figuras públicas sem vivência real de pista. “Muita gente vira DJ praticamente da noite pro dia”, diz, ao apontar que números de seguidores, hits prontos e um visual chamativo passaram a pesar mais do que pesquisa musical e técnica.
Rafael explica que existe uma fórmula clara e conhecida por produtores e agências. Quem já entra com mailing forte larga na frente, enquanto DJs que começaram do zero acabam ficando à margem. “No tribal, hoje, não é difícil se sobressair… desde que você siga essa fórmula. O problema é que, nesse processo, o talento fica em terceiro plano.”
Apesar disso, ele faz uma distinção importante entre o que o mercado vende e o que o público realmente responde. Para Rafael, a chamada “estética padrão” não é mais decisiva na pista. “Vejo homens lindos tocando sem camisa, mulheres dentro do mesmo padrão, e ainda assim o público rejeitando. Porque não é sobre estética, é sobre vibe.”
Ex-gogo dancer, ele lembra que houve um tempo em que o corpo no palco era o centro do espetáculo. Hoje, a lógica mudou. “A galera quer energia. Se o som for ruim, o público reclama e aquela pessoa sai de circulação.”
A exceção, segundo ele, está nas redes de proteção quando relações pessoais garantem espaço independentemente da qualidade do set. “Em alguns casos, pode tocar o pior som possível que ainda haverá destaque. Isso é mais comum do que muita gente imagina.”
A fala de Rafael Rosa escancara um mercado em conflito entre aparência e essência, e reforça uma verdade antiga da pista: no fim, é a música que fica.
Publicado originalmente no Instagram da Circuito Tribal House.
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